Zizi Pedruco
É curioso, para não dizer inquietante, assistir a Ramos-Horta, Presidente da República e suposto guardião da Constituição, a propagar a ideia da língua indonésia como língua oficial de Timor-Leste.
Vindo de quem jurou defender a Constituição, esta sugestão soa menos a visão de futuro e mais a um “lapso” de memória histórica, ou a uma manobra política fria, típica do mais puro maquiavelismo.
A Constituição não é meramente um texto decorativo, nem algo adaptável às conveniências dos políticos. É clara e inequívoca: Timor-Leste tem duas línguas oficiais, o tétum e o português. Qualquer tentativa de reescrever este princípio à margem do texto constitucional não é modernização, é violação constitucional. E quando essa violação parte do próprio Chefe de Estado, o problema deixa de ser linguístico para se tornar institucional.
Aprender indonésio pode ser útil, sem dúvida, tal como aprender inglês, mandarim ou coreano. Mas a utilidade prática nunca foi critério para tornar uma língua oficial. Se assim fosse, a Constituição já teria sido substituída por um guia de conveniências políticas. As línguas oficiais existem para preservar a nossa história, identidade e resistência, valores que, ao que parece, alguns preferem ignorar e reescrever a história, para satisfazer os seus egos narcisistas, caso de Ramos-Horta e Xanana Gusmão.
Há um cinismo particular de contradição em propor como língua oficial a língua do antigo invasor, o mesmo regime que assassinou mais de 200 mil timorenses. Esta proposta é feita precisamente por quem construiu parte do seu prestígio político com a postura de resistência à ocupação Indonésia e respeito pelo Direito Internacional. Não é apenas incoerente, é politicamente desconfortável, moralmente questionável, e, diria mesmo, vergonhoso, criminoso até. Mais uma traição de Ramos-Horta contra o povo timorense.
Talvez fosse mais prudente recordar que o maior entrave ao desenvolvimento de Timor-Leste não reside no número de línguas oficiais, mas na fragilidade das instituições, na corrupção, no nepotismo, no conluio com interesses obscuros e no silêncio cúmplice do Presidente da República em torno de redes criminosas que continuam a operar impunemente em Timor-Leste, a começar pelo próprio governo de Xanana Gusmão.
Defender a Constituição começa por respeitá-la, sobretudo quando se ocupa o mais alto cargo da República Timorense.
Vergonha absoluta, Ramos-Horta. Vergonha absoluta.